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Ata-me com laços de arame farpado (lágrimas masoquistas de Fausto, o intolerante)

Setembro 19, 2009

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Eu preciso dela…
Da dor que ela me proporcionava com seu escárnio e desprezo escarrado em palavras grosseiras.
Da sensação de desamparo toda vez que ela me dizia que ia embora.
Dos comentários cheios de prepotência, das críticas cancro-destrutivas, do dedo em riste na minha cara.
Dos gestos agressivos, do estampido de portas batendo e coisas sendo atiradas no chão.
Eu preciso…
Do alívio que me invadia sempre que ela se desculpava, transbordando em lágrimas.
Das promessas de que tudo ia mudar, de que nunca mais brigaria comigo.
Da voz rouca dela depois de tanto gritar e chorar.
Dos abraços apertados, dos beijos profundos, do encaixe perfeito do corpo dela no meu.
Eu tenho…
Uma garota ao meu lado, tão dócil, tão querida.
Como meu reflexo no espelho, tão igual a mim, tão passiva.
Dócil e compreensiva, ela nunca briga comigo, nunca grita, nunca me ofende.
E eu não dou valor a ela.
Eu acabo de deixá-la.
Porque ela não me faz sentir.
Com ela eu não sinto raiva, não sinto ódio, não choro.
Não sinto o torpor da renúncia ou a exaltação da reconquista.
Ela está sempre ali, numa paz eterna e bege.
Eu sei…
Que se eu pedisse para o diabo tomar minha alma de volta, ele me acharia um idiota.
Que se eu dissesse que eram suas cobranças exageradas que me faziam progredir, ele apenas soltaria uma gargalhada.
O céu é uma grande besteira, preciso desesperadamente sentir fogo e gelo na minha pele até que ela se descole da minha carne.
Eu preciso de contrastes, de extremos, de cores vibrantes, de farpas cravadas sob minhas unhas.
Eu tenho certeza…
De que ela é o diabo, só pode ser.
Porque se não for, como explicar essa obsessão em querer estar com alguém que me faz sofrer, me ofende, me machuca, me rejeita?
Eu vendi minha alma, confesso.
Em troca de algo que penso ser amor, mas sei que não é.
E agora sigo assim, sentindo falta. Falta da dor, do falso amor.
Tudo o que eu queria era ser machucado por ela de novo.
Ata-me…
Açoita-me…
Estupra-me…
Esfaqueie-me…
Ofenda-me…
Mas desde que você me beije com ardor depois de tudo isso.
 
 
 
“Only the one that hurts you
Can make you feel better
Only the one that inflicts pain
Can take it away” – Madonna
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Borboletas na calçada (Você permite que as pessoas te amparem?)

Agosto 15, 2009

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Num dia desses, a caminho para o trabalho, notei uma borboleta pousada na calçada.
Abria e fechava as delicadas asas vagarosamente. Devia ter acabado de sair da crisálida, por isso ainda não tinha força suficiente para alçar vôo.
Preocupei-me com a possibilidade dela ser esmagada por algum transeunte distraído.
Com toda delicadeza que meu rude ser permite, segurei-a pelas asas e pousei suas pequeninas patinhas pretas na palma de minha mão, na intenção de colocá-la num galho de uma árvore que havia logo ali.
A borboleta começou a debater-se.
Então ela virou para mim e disse: “Não precisa se preocupar. Eu estava indo muito bem sozinha! Pode me deixar onde eu estava! Não preciso da sua ajuda! Mesmo assim, obrigada.”
Daí eu mandei ela à merda!
(…)
Claro que isso não aconteceu.
Quisera eu encontrar borboletas falantes pra quebrar a monotonia dos meus dias.
Mas, tirando o desfecho, todo o restante é verdadeiro.
Tenho o hábito de atentar para as borboletas na calçada quando ando pelas ruas.
E é muito comum encontrar alguma nessa mesma situação que descrevi, totalmente à mercê da atenção (ou desatenção) dos pedestres.
Daí lá vou eu, a canceriana romântica hipersensível pseudo-ecológica salvando mais uma borboletinha.
Falo disso agora porque, numa certa ocasião (minto, foram várias vezes), chamaram minha atenção sobre uma característica minha: o orgulho.
Dizem que não permito que me ajudem, dizem que não admito minhas necessidades, dizem que não preciso fazer tudo sozinha.
E é verdade!
Mas veja bem, eu simplesmente não gosto de incomodar os outros. E é só isso!
Só que para aceitar o amparo dos outros, eu precisaria adquirir uma outra característica: a humildade.
O que seria, além de um ótimo upgrade, uma novidade para mim porque nunca fui humilde, nem um pouco.
Sempre vivi num poço transbordante de egocentrismo.
Creio sinceramente que nossas relações, sejam quais forem, trazem boas lições.
E, no que diz respeito a aceitar a mão estendida do próximo, posso dizer que tive um bom professor (embora ele tenha praticamente me obrigado a aceitar sua ajuda).
Prometo que da próxima vez que me pegarem pelas asas, vou parar de me debater e me entregar ao amparo.
E, pra quem sabe do que estou falando, obrigada por me ajudar a pintar as paredes da minha fortaleza. Rs.
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Rótulos rasgados, etiquetas em branco (Por que precisamos ser nomeados?)

Agosto 15, 2009

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Já fui criança quando tudo o que eu queria era ser adulta.
Já fui virgem quando tudo o que eu queria era ser livre.
Já fui boa filha, mas só enquanto eu continuava virgem.
Já fui namorada quando tudo o que eu queria era ser esposa.
Já fui esposa quando tudo o que eu queria era estar morta.
Já fui amante quando tudo o que eu sentia era culpa e vergonha.
Já fui amor quando tudo o que eu sentia era nada.
Já fui promíscua quando tudo o que eu queria era não ser julgada.
Já fui “ficante”quando tudo o que eu queria era fidelidade.
A vida não devia ser mais simples?
Hoje me sinto vazia, hoje sou adulta, sou mulher, sou sozinha, estou viva, com fome, com sede, com raiva.
Hoje tudo o que quero é não ser nada.
Não me diga o que sou pra você, se significo alguma coisa (ou signifiquei) porque decidi que a partir de agora isso não me importa mais.
Não me dê nomes e nem adjetivos.
Apenas finja que eu nunca existi.
Obrigada.
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Meu primeiro conto publicado!

Agosto 8, 2009

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Para quem quiser adquirir o volume 3 da Coleção Paradigmas, da qual participo orgulhosamente estreando como escritora com meu primeiro conto “De Vento e Pedra”, basta entrar no site: http://www.tarjalivros.com.br/detalheprod.asp?produto=38.

Os volumes anteriores estão à venda no mesmo site.

O livro custa apenas 13,00 e possui contos variados de ficção e fantasia. São 13 autores no total: Richard Diegues, Ludimila Hashimoto, Ronaldo Luiz Souza, Saulo Sisnando, Lúcio Manfredi, Leandro Reis, Camila Fernandes (minha amiga de trabalho, dança, letras e longas conversas), Marcelo Jacinto Ribeiro, Davi M. Gonzales, Gianpaolo Celli, Wolmir Alcantara, Hugo Vera, e por fim, eu. 

Pra quem for comprar, agradeço imensamente!

Pra quem não for comprar, obrigada pela visita! ;)

E pra quem comprou, leu e se identificou… bom, todos nós, algum dia, já fomos pedra! rsrs

Beijos!

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Possuído pela Serpente (Impressões)

Junho 21, 2009
Rachel Brice

Rachel Brice

Lasciva…
É ela quem está seminua, porém sou eu quem se sente despido.
Estar diante dela é como me olhar no espelho, reflexo meu, melhor e maior.
Fazendo-me sentir tão infinitamente pequeno deste lado.
Descarada…
Orgulha-se de seu corpo e o exibe, concentrada em si, apaixonada por sua própria imagem.
Não se importa com as coxas aparentes ou o ventre nu. O decote expõe seus frutos maduros e suculentos.
Ela exibe sua pele como vestimenta fina.
E eu quase sinto ódio dela. Pela liberdade que ela sente. Pelo seu desapego e entrega.
Sei que ela não se importa com o que os outros pensam ou falam, pois tudo o que ela quer é dançar. Dançar para si e somente para si.
Hipnotizado…
Prendo minha respiração quando ela fixa seus olhos em mim.
E claro, ela percebe meu desconforto e sorri.
Gostaria de sorrir de volta, mas não consigo.
Prepotente…
O controle que ela tem sobre seu corpo é impressionante.
Age como se pudesse dominar as emoções de todos na platéia. Na verdade ela pode.
Rendido…
Queria morrer nessa hora.
Morreria ali, olhando pra ela.
Eternizaria toda minha existência naquele momento de fascinação.
Naqueles quatro minutos de sua dança divina. E terrível.
Possuído…
Sinto-me pequeno, quase um nada.
A música conduz meu devaneio para um lugar perdido, árido.
Lá eu me vejo sozinho e triste.
Minha vida só faz sentido quando a vejo dançar.
E ela faz parte da paisagem da minha vida somente por alguns minutos.
E aqueles seus movimentos sinuosos, de um erotismo explícito, invadem meu corpo arrepiando-me por completo.
Não é desejo carnal, é desejo divino.
Porque neste momento em que eu a vejo, eu volto a crer no belo, no sagrado, no incorruptível.
Eu passaria toda a eternidade vendo-a dançar…
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Asas de Ícaro (cânticos da Ninfa Branca)

Junho 20, 2009

icaro

E ele, ao levantar vôo e alcançar alturas imensuráveis, sentiu-se pleno.
Ao avistar lá embaixo a humanidade, tão pequenina em suas limitações e medos, viu-se pequeno também.
Almejou a liberdade desesperadamente, desejou a virtude dos insanos, a proeza dos desprendidos, o ardor da fuga deliberada.
E foi então que viu o sol, como jamais havia visto, em todo o seu esplendor e majestade.
Nele viu figura serena, andrógina, a abrir os braços de raios fulgurantes em sua direção.
E desejou estar junto dela, fazer parte de sua existência divina.
Fora avisado da fragilidade de suas asas.
Sabia que poderia perder sua vida ao aproximar-se demais do astro de fogo.
Mesmo assim, deslumbrado que estava, tomou a direção daquela luz incandescente.
Dizem que as bruxas morreram em êxtase nas labaredas das grandes fogueiras.
Dizem que o fogo transforma, transmuta, mas consome.
E então, consumido pela paixão abrasadora pela estrela maior, voou na direção dela, consciente do seu destino.
Suas asas começaram a desfazer-se e ele, consumido pelo calor, nada mais sentia.
Não sentiu seu corpo despedaçar-se na superfície do Egeu.
Não sentiu quando seu espírito desprendeu-se de sua matéria física.
Ícaro permanece planando os ares, declamando poemas de amor à sua luz divina.
Ícaro morreu em carne para entregar-se em espírito ao amor que sentiu.
Seremos nós corajosos o suficiente para lançarmo-nos numa queda de desapegos em prol de um sentimento maior?
Seremos nós covardes o bastante para mantermo-nos longe do fogo, do calor, da transformação?
Por favor, empurre-me do abismo e queime minhas asas.
Porque eu, sozinha, jamais consegui…
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Rainha de Gelo (contos da Lua Negra)

Junho 15, 2009

rainha

Branca e prepotente, ela reinava orgulhosa em seu castelo de gelo, arrastando sua longa capa de peles albinas.
Em seus olhos opacos nada se via além de frio e devastação.
Seus lábios estavam colados, pois há tempos ela não dirigia a palavra a ninguém.
Quem seria suficientemente digno para ter a honra de ouvir sua voz divina?
Ela vivia só, numa realidade sem cor.
Seus longos cabelos, quase transparentes de tão brancos, eram secos e ásperos como a crina de um cavalo velho.
Seu coração era duro, rígido feito pedra.
Nada sentia, não se importava com ninguém.
Seu território avançava mais e mais, cobrindo vastas áreas com gelo branco cortante.
Homens e animais sofriam, não suportavam mais fugir daquele inferno de neve.
Atormentados por nevascas cada vez mais violentas, os seres vivos partiam em busca de terras quentes, em busca de vida.
Séculos se passaram e o gelo continuou avançando.
Seu mundo tornou-se um museu de humanos e animais congelados.
E ela passeava orgulhosa, admirando a beleza da morte branca.
Certo dia ela deparou-se com uma figura conhecida ao entrar numa casa velha.
Era um ancião, que jazia petrificado em seu leito de morte.
Apesar dos traços marcados pelo tempo, ela o reconheceu.
Dolorosas lembranças a chicotearam lançando a rainha ao chão.
Ele, que há muito tempo atrás, a rejeitara duramente dizendo-lhe o quanto a desprezava pela sua postura arrogante e egoísta.
Ele, que quando jovem, possuía longos cabelos cor de mel, lábios macios e pele bronzeada.
Ele, que era mais belo que o crepúsculo de outono.
Lágrimas quentes deslizaram pela face alvíssima dela, descongelando parte do gelo fino que cobria sua pele.
Tão perdida ela estava em seu delírio de neve que nem sequer se recordava do porquê de sua fome de morte.
Nunca aceitara a rejeição, nunca se permitira apaixonar-se novamente.
E agora, vendo-o no leito com sua companheira congelada ao lado, ela o odiou.
E invejou a vida que ele teve, num lar aconchegante e quente, junto de sua família.
Ajoelhou-se ao lado da cama, recostou sua cabeça na mão gelada do seu amado e ali ficou.
Lá fora, uma nevasca violenta precipitou-se sobre a velha casa.
E o branco devorou a paisagem.
(…)
Ela ainda existe, no vento frio do inverno.
Ela ainda existe, na vastidão das grandes geleiras.
Ela ainda existe, dentro dos nossos corações.
Só que agora seu nome é Tristeza.
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O “eu te amo” justifica tudo? (amarguras de Fausto, o intolerante)

Junho 11, 2009

amo

Ela disse que me amava e eu, deslumbrado, mergulhei afoito na sua rede de contenção, mergulhei nela cego pelo meu tesão desenfreado.
E ela, de braços e pernas abertas, me recebia carinhosa e caliente, tão linda, tão minha, tão necessitada de proteção.
No princípio era tudo perfeito, passei a ser sua razão de viver.
Ouvia um elogio após o outro, ela me falava das nossas afinidades, nossas conversas inteligentes, nossas brigas irrelevantes.
Seu ciuminho vinha acompanhado de gracejos, que fofa ela, tão dócil e receptiva, tão comunicativa e complacente.
Mas isso foi só durante um tempo…
Depois de passados alguns anos, tudo mudou.
Os elogios se transformaram em críticas, os gracejos em cobranças.
Aos poucos ela foi me moldando, tomei a forma que ela queria, falava aquilo que ela esperava ouvir de minha boca.
Eu me olhava no espelho e não me via mais, eu a via em mim.
Daquela boca doce e macia, que tanto me fizera gemer e sonhar, eu via surgir uma erupção de palavrões acompanhados pela fumaça do seu maldito cigarro fedorento (ah, sim, ela havia parado de fumar, mas por culpa minha e do desgosto que eu lhe proporcionava, claro, ela voltou ao seu vício).
O sexo virou moeda de troca enquanto ela oscilava de diva ninfomaníaca a mármore frio. E eu, que sou um idiota, me deixava manipular feito marionete. Era louco por ela, ou melhor, pelo corpo dela.
Depois de cuspir na minha cara, depois de tacar a aliança no chão, ela chorava, chorava, quase vomitava, quase desmaiava, dizendo que era tudo culpa minha.
E depois de levá-la ao Pronto-Socorro, depois de tomar um soro inútil com alguma porcaria qualquer, eu a levava de volta pra casa.
E daí ela chorava, chorava e dizia que a culpa era toda dela, que era louca, que a culpa era dos pais que não lhe deram atenção ou do coleguinha do “prézinho” que lhe puxava as tranças. E então colocava a aliança de volta com todo o carinho dizendo o quanto me amava.
E então eu transava com ela (não sei por que eu sempre achava que, depois de uma boa trepada, por milagre, tudo ficaria bem de novo) esperando um dia seguinte normal.
E os dias normais duravam uma semana, até a próxima crise de ciúmes, até a próxima conta que eu esquecia de pagar, até a próxima toalha molhada largada em cima da cama.
Mas tudo bem porque ela dizia que me amava.
E o amor justifica tudo!
Justifica o cacete!
Até agora eu não sei onde eu estava com a cabeça, sorrindo feito uma besta naquele maldito altar. (Bom, ela disse que me amava.)
Hoje ela me odeia, fala mal de mim pras amigas, diz que eu não a satisfazia na cama, que tenho o pinto pequeno. (Mas ela disse que me amava.)
Ontem recebi a papelada do divórcio e, claro, ela quer tudo o que possuo, mais minhas calças e cuecas. (Ela tinha tudo o que queria quando me amava.)
Daí você vê que nem sempre fui um intolerante… Já suportei muito por me dizerem “eu te amo”!
E, na boa, da próxima vez que me disserem isso, vou me cagar de rir.
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Pedido de desculpas: arma branca, carta na manga (escarros de Fausto, o intolerante)

Junho 6, 2009

desculpas

Não entendo o que se passa na cabeça destas pessoas, infames, que insistem em desculpar-se.
Ferem-me no rosto, no peito, cagam no meu orgulho e depois, na cara mais lavada possível, me pedem desculpas.
Pergunto-me se isso não é ato premeditado. Ou se me consideram um imbecil.
É tão fácil machucar, ofender, desaguar merda lamacenta na cara de algum infeliz e depois dizer: “Desculpe-me, eu estava fora de mim…”.
Se não houvesse o pedido de desculpas, será que as pessoas errariam menos? Machucariam menos? Perderiam menos a compostura?
Você toma mais cuidado quando sabe que não haverá outra chance.
E nisso perdem-se amigos, casamentos, confiança, lealdade…
Um dia uma pessoa foi extremamente grossa comigo, extremamente, e sem motivo racional.
Saí aborrecido, fui para o meu canto, e esta pessoa veio até mim minutos depois desculpar-se.
Seu pedido saiu cuspido, num esgar de desamor, cheio de raiva e pretensão.
Disse algo do tipo: “Desculpe-me, sei que me descontrolei e blá, blá, blá…”.
O problema não foi o pedido, mas a forma como saiu o pedido.
Já considero tal pessoa feia, feia de doer. Conseguiu ficar mais feia ainda.
E eu, que sou uma mula sentimental, comecei a chorar e disse que não era hora para conversar.
A pessoa voltou para o seu canto e, conversando com seus amigos, pôs-se a gargalhar feito uma hiena escandalosa em pleno cio.
Daí se vê o bem que lhe fez arrancar-me lágrimas, e depois o bem que lhe fez pedir-me desculpas garantindo sua redenção perante o que quer que acredite.
E assim caminhamos nós, querida humanidade.
Esporrando na cara dos outros e depois implorando seu perdão.
E detalhe: ai de você se, depois do pedido de desculpas, você não perdoar o indivíduo.
Daí é você o errado, o culpado, o egoísta, o maldito e miserável pecador!
Ei, inferno, diga-me que sou bem-vindo!
Depois de um pedido de desculpas tão singelo, como você se atreveria a jogar fora uma amizade de dez anos, um casamento de 15, consanguinidade?
Ah, sim, desculpo sim, perdôo á tudo e á todos!
E por favor, continuem batendo na minha cara, cuspindo na minha boca, chutando minhas bolas e meus presentes, dizendo o quanto sou horrível e não presto!
É isso mesmo!
E depois olhe bem para o meu rosto… Você vai ver que ele está mais furado que uma peneira.
Cansei-me das suas facadas…
E desculpe-me, mas não haverá perdão desta vez!
Afinal, sou um reles intolerante.
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Impressões (vislumbres de Arena, fugitiva do Nirvana)

Junho 5, 2009

ruiva_curto

Ela caminhava de cabeça erguida, com a prepotência daqueles que desvendaram todos os segredos do Universo.
Em seus olhos se via verdades e malícias.
Em seu colo, conforto e luxúria.
Em seu ventre, apenas perdição… Perdição eterna.
E você teria a certeza de estar salvo se ela te amasse, nem que fosse por um único dia.
Pois ela estava fadada a ser vista como salvação embora estivesse longe de o ser…
Ela nem sequer poderia salvar a si própria, tão louca e desvairada estava, no delírio de suas angústias…
Quem a salvaria, então?
Deus havia se esquecido dela há séculos atrás…
Ainda assim ela carregava um sorriso estranho nos lábios, atraente e usurpador.
Um tanto que promíscuo, pintado de vermelho sangue, contagiando todo infeliz que cruzava seu caminho, envenenando sua mente com pensamentos de perversão…
Como não amá-la? Como não odiá-la ao mesmo tempo?
“Eu beberia um cálice de suor teu…!”